domingo, 24 de abril de 2011

o mundo às vezes pára


Minha querida avó, hoje poderia estar agarrada a ti a perguntar-te se tinhas fome ou calor, ainda que não me respondesses, hoje poderia fazer essa acção ou optar por olhar para os teus olhinhos já cansadinhos, e ouvir o que o teu silêncio me poderia dizer. Também podia estar a conversar com a enfermeira para ver quando tinhas alta, ou poderia estar a dar-te comida pela sonda (como já era nos últimos dias)...mas não. Sabes o que fiz hoje? Vi-te e toquei-te enquanto estavas adormecida sobre um tecido rendado branco, estavas gelada, e por cima de ti estava um lençol transparente, acima da tua cabecinha, avó, estava uma imagem. A célebre imagem. Aquela que supostamente deveria dar-nos força enquanto a olhamos. Hoje enquanto a olhei o único sentimento que esteve presente foi o desconforto emocional e físico. À tua volta, minha querida, estavam muitas flores. Flores com bilhetes onde estavam escritas palavras de conforto para ti. Mas será que alguma coisa te confortou hoje? Mesmo nessa incerteza, eu pousei a minha mão sobre as tuas duas, tão geladas e brancas. À frente dos teus pés estava um livro para cada pessoa presente, assinar o seu nome se desejasse e escrever algumas palavras oriundas da boa vontade. Eu ainda peguei na caneta, mas achei desnecessário escrever o que poderia transmitir-te por pensamento. O meu acto de expiração e inspiração estava acelarado, e enquanto olhava para ti, pensava no pouco que me ensinaste, que seja possível lembrar-me, visto que o alzheimer, o teu alzheimer era mais velho que a tua própria neta. Tanta vez que sacrificava o meu pensamento para tentar decifrar o que me querias dizer... Deixava-te falar. Nunca, em algum segundo te deixei de ouvir, ainda que já nem palavras fossem, eu percebia-te e respondia-te com aquilo que achava mais justo. Ás vezes lá soltavas uma ou outra gargalhada, e só eu sei como conseguias deixar-me feliz! Só eu sei... Pois é. Agora estou aqui, eu... Não te fui ver hoje à clinica, e nem olhei os teus olhos verdes. Já sabes o que fiz hoje, mas nem tu, nem ninguém imagina o que senti. Foi (e é) pavoroso. Senti-me triste, abalada, o chão fugiu-me muitas vezes, como a tua alma fugiu do teu corpo avó. Porquê? Tu não devias deixar-me, não agora. Devias ajudar-me a educar os meus filhos, devias dar-me conselhos e nunca me deixar. Devias continuar a acompanhar o meu crescimento, tal como eu o teu envelhecimento. Devias escutar-me, tal como eu a ti, devias ajudar-me nas minhas fraquezas e nunca parar de respirar. Hoje parecias uma bebé. Tão pequenina, tão doce, tão meiga e inofensiva. Ajudei muitas vezes a mãe a escolher-te a roupa, e ontem, não foi exepção. Ajudei a escolher a roupa para te deitarem vestidinha da melhor forma. Estavas linda, como sempre foste. A tua beleza nunca dependeu das circunstâncias, e o teu saber-estar perante tudo e todos era soberbo. Sempre te admiraram por aquilo que foste em vida, nas tuas melhores condições, e nas piores admiro-te eu. Queria muito ter tido coragem para te dar um último beijinho, mas não consegui. Não foi por querer ficar com a tua imagem viva, porque tu para mim estarás para sempre viva, foi por seres tão próxima e tão minha. Desaparecido o teu cheiro, e instalado o cheiro a hospital, a tua cara era sempre alvo de resultados de saudades que tinha tuas. Adorei o tempo que vivemos juntas, na mesma casa. Adorava chatear-te e fazer-te penteados. Estou muito fraca, e já nem sei o que te dizer mais...
Sinto-me muito lisonjeada em ter-te conhecido e que sejas a minha avó. Embora já não sejas da vida, serás sempre minha.
Adoro-te como ninguém te adora, minha riqueza.

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