
Não sei de que é feito o ser humano, nem tão pouco quem é o ser humano. Não sei como cheguei aqui, nem o porquê de ter chegado aqui. Sempre que escrevo escapa-me do pensamento uma palavra cuja definição é um problema em aberto: vida. Não sei quem é ela, mas sei que vivo nela, ou para ela. Também não sei se é mãe, mas em muitos momentos penso na hipótese de ser madrasta. O mais fácil é criar personagens, personagens essas longínquas da pessoa, ou, portanto, do padrão normal que as situações nos oferecem consoante as suas vontades. Em muitos momentos, eu tentei criar uma personagem, tentei criá-la para me poder defender de palavras ou actos inconscientes que sem outra escolha acabavam por me afectar. Ilustro um resultado de reacções com um passado revolto, e o que considero mais grave é que por muito que procure não encontro a borracha, então, parando, observo um todo de ideias e contradições umas sobrepostas nas outras de um modo não muito delicado, e sinceramente isso vai preocupando, porque quanto mais anos faço, maiores são as duvidas e afinas, maiores são as ambições, e maiores são os receios. Também maior é a independência tal como as responsabilidades…não sei até que ponto é saudável saber o que o futuro tem. Mas eu faço uma pequena ideia através da apoucada demonstração que faz dia para dia. Tento falar-lhe, ele vira-me as costas e abraça-me o presente sendo empurrado pelo passado. Em muitos dias denuncio-me a mim própria e fico alheada do universo. Tento ficar alienada da respiração ou do meu intermédio de sobrevivência, não consigo, porque embora saiba que muitas vezes a justiça e dignidade adoeçam permanentemente, há oportunidades que não se podem perder, e eu não quero perder a oportunidade de poder proferir que vivi. Sinto-me fatigada por motivos intrincados, intoleráveis, e com infausto aspecto. E esses motivos não são tão poucos como outrora desejei que fossem, ou como que palavras soltas desafiando sentidos desconhecidos. Esses motivos são todos de raciocínio, mas talvez contraditórios de um jeito leve e não muito compreensivo. Conjecturar um bom futuro, eu não o posso fazer, mas viver um óptimo presente eu faço-o diariamente tentando levar a cabo o que me ensinam todos os dias… tenho os pés mais assentes na Terra que o próprio chão, e não descartando o facto de que viver é bom, gostava de saber se estar morta será melhor. Desde que não se abandone a si próprio, talvez um dia, entendamos o que hoje não podemos entender.



